
A campanha eleitoral fará da economia em 2026 um ano de contrastes no Brasil. No primeiro semestre, devem se abrir janelas de oportunidade com o início de um ciclo moderado de cortes nos juros que, na avaliação de especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, deve começar no mais tardar em março. No segundo semestre, porém, as incertezas tomam conta: a disputa eleitoral e a pressão fiscal retomam o centro do palco.
A principal característica do ano será a alta volatilidade — ou seja, oscilações bruscas nos preços de ativos e no humor dos investidores. Essa instabilidade será ditada pelo conflito entre forças externas favoráveis e vulnerabilidades fiscais internas em pleno ciclo eleitoral.
Analistas do UBS destacam que o ano será “binário”: o primeiro semestre será impulsionado por ventos globais e pela expectativa de queda dos juros domésticos; o segundo semestre estará sob o domínio da incerteza política e do risco de instabilidade, caso o próximo governo não sinalize um plano crível de ajuste das contas públicas para 2027.
A escolha nas urnas de 2026 não determinará apenas quem governa, mas se o país enfrentará a inadiável agenda de ajuste fiscal ou prolongará o caminho da dominância fiscal — situação em que a dívida pública elevada compromete a eficácia da política de juros, forçando o Banco Central a manter taxas cronicamente altas para compensar o descontrole das contas públicas.
Mesmo diante desse cenário mais volátil, o mercado financeiro projeta a continuidade do crescimento da economia, porém em ritmo inferior ao verificado neste ano. A mediana das projeções de crescimento está em 2,3% para 2025 e em 1,8% para 2026, segundo o boletim Focus.
Duas forças antagônicas vão movimentar a economia brasileira ao longo de 2026. De um lado, a dinâmica global mostra resiliência e favorece investimentos em ativos de risco, como ações e moedas de países emergentes. Do outro, a crescente vulnerabilidade fiscal interna ameaça a estabilidade macroeconômica.
Cenário externo: ventos globais favorecem o Brasil no 1.º semestre
A perspectiva favorável para o início de 2026 reside, em grande parte, na dinâmica global. O cenário internacional é resiliente e favorável a ativos de risco. Os Estados Unidos não devem ter recessão, sustentando o crescimento global em torno de 3%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
IA e tecnologia como motores do crescimento da economia em 2026
O crescimento é impulsionado pelos investimentos maciços em tecnologia e inteligência artificial (IA), que continuam a ser um motor de expansão, aponta o J.P. Morgan Private Bank. O banco destaca que o impulso de crescimento proveniente dos gastos com IA será uma fonte relevante de ganhos do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026.
Nos Estados Unidos, o investimento relacionado à IA já contribuiu mais para o crescimento do PIB do que o consumo em 2025. O avanço da IA tem impulsionado um aumento expressivo nos investimentos em infraestrutura, com as grandes empresas de tecnologia dos EUA triplicando seus gastos anuais de capital nos últimos anos.
Além disso, o pacote de corte de impostos do governo Trump deve injetar US$ 240 bilhões na economia americana entre 2025 e 2026, sustentando o consumo e a atividade, ressalta William Castro Alves, estrategista-chefe da corretora Avenue, especializada em ativos internacionais.
Cortes do Fed beneficiam mercados emergentes
O fator mais importante para o Brasil é o esperado ciclo de queda dos juros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que deve continuar ao longo do ano. Dois fatores contribuem para essa expectativa: a inflação moderada e o desaquecimento do mercado de trabalho. Apesar da expectativa de cortes, o cenário ainda será de juros reais elevados.
Segundo especialistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a política do Fed, ao se mover preventivamente, é vista como um enfoque de “administração de risco”, buscando dar estímulo à economia e evitar um risco de deterioração, mesmo que os dados não sinalizem uma crise aguda.
A equipe de análise econômica da Genial Investimentos avalia que o mercado de trabalho e a atividade econômica mais aquecidos na maior economia global, junto com as incertezas que ainda permeiam a taxa de inflação, devem fazer com que o Fed adote uma postura mais conservadora no primeiro trimestre de 2026 e não promova qualquer alteração na taxa de juros.
O real brasileiro, por sua vez, se beneficia do elevado diferencial de juros domésticos — a diferença entre os juros pagos no Brasil e nos Estados Unidos. Isso oferece uma relação atrativa entre retorno cambial e risco entre os mercados emergentes, o que garante sua relativa força no primeiro semestre.
Taxa Selic e política monetária: gastos limitam queda dos juros
Esse cenário externo favorável contrasta com os desafios domésticos. No plano interno, a política de juros tem sido o principal fator de estabilidade. O Banco Central, sob a presidência de Gabriel Galípolo, manteve uma postura conservadora, sinalizando cautela com a inflação. Essa condução foi crucial para a queda das expectativas inflacionárias e para o fortalecimento da credibilidade institucional.
A Selic — a taxa básica de juros da economia brasileira —, mantida em um patamar restritivo de 15% por um período prolongado, atingiu seu objetivo de conter a demanda, destaca Hugo Garbe, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Com uma menor inflação e as expectativas recuando, o BC deve iniciar o ciclo de cortes no primeiro trimestre de 2026, dependendo da evolução da inflação. A expectativa do mercado é de que o ciclo seja moderado e que a Selic encerre 2026 em um nível ainda elevado, próximo de 12,25%, de acordo com as expectativas de mercado apresentadas no boletim Focus do BC.
Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Wealth Management, lembra que existe uma tensão entre a política de juros e a política fiscal — isto é, entre o controle da inflação via juros altos e o aumento dos gastos públicos.
Essa situação é frequentemente destacada nas atas do Comitê de Política Monetária (Copom). “E ainda há as eleições, que praticamente limitam os cortes ao primeiro semestre”, ressalta Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.
Risco fiscal e a limitação da ação do Banco Central
Economistas alertam para o risco de dominância fiscal, situação em que a dívida pública elevada e a percepção de descontrole dos gastos governamentais compromete a eficácia da política de juros.
A continuidade e profundidade dos cortes na Selic, especialmente abaixo do patamar de 12,5% e em direção ao juro neutro — o nível de juros que não estimula nem desacelera a economia, estimado em 6% reais pelo UBS em um cenário fiscal sustentável —, dependem da sinalização de um programa fiscal crível pós-eleições.
Endividamento público acende alerta de sustentabilidade
O risco fiscal é a principal vulnerabilidade macroeconômica brasileira. O endividamento público deve atingir 83,8% do PIB em 2026, partindo de 79,6% em 2025, de acordo com o grupo financeiro suíço.
Esse crescimento acelerado, superior a quatro pontos percentuais do PIB, é resultado da manutenção de juros reais altos e da ausência de superávits primários consistentes — ou seja, o governo não consegue gastar menos do que arrecada, antes de pagar os juros da dívida.
Excetuando um pequeno período entre o fim de 2021 e o início de 2023, as contas públicas brasileiras estão no vermelho desde novembro de 2014, no governo Dilma Rousseff.
O governo demonstrou preferência clara pela expansão dos gastos e receitas, evitando o enfrentamento de despesas obrigatórias. A isenção do Imposto de Renda para rendas até R$ 5 mil mensais exemplifica o dilema fiscal. Embora apresentada como neutra em termos de arrecadação, a medida gera impulso à demanda de 0,1% a 0,2% do PIB.
Por beneficiar faixas com alta propensão a consumir — isto é, famílias que tendem a gastar quase toda a renda adicional que recebem —, a medida força o Banco Central a manter a Selic elevada para conter pressões inflacionárias, elevando o custo macroeconômico da política.
Além disso, a dinâmica de gastos obrigatórios já está contratada. O reajuste real do salário mínimo no início do ano e a vinculação de benefícios sociais e previdenciários ampliam o comprometimento da renda e elevam as despesas em um ritmo superior ao limite global do arcabouço fiscal (2,5%).
Risco na rolagem da dívida pública aumenta
A composição da Dívida Pública Mobiliária Federal (DPMFi) piorou, com aumento da participação de títulos pós-fixados — aqueles atrelados à Selic, que encarecem quando os juros sobem — e prazo médio restrito a apenas quatro anos.
Essa estrutura, em um cenário de juros altos e incerteza eleitoral, aumenta a vulnerabilidade ao risco de rolagem — a dificuldade de renovar a dívida que vence — e amplifica o custo do serviço da dívida. Essa estrutura agrava o risco de dominância fiscal.
Projeções para a Selic e inflação de serviços: o que esperar para a economia em 2026
O Banco Central deve iniciar o ciclo de cortes no primeiro trimestre de 2026. A expectativa é de que os cortes sejam graduais, com reduções de 0,25 a 0,50 ponto percentual por reunião, dependendo da evolução dos dados de inflação e atividade.
Contudo, o ciclo deve ser curto e de magnitude limitada. O consenso projeta a Selic terminando 2026 em torno de 12,5%, patamar ainda muito elevado para os padrões históricos. Esse juro elevado reflete uma realidade incômoda: o Banco Central é forçado a compensar com juros altos aquilo que o governo não resolve com ajuste fiscal.
Desemprego baixo e inflação travam o BC
Dois fatores limitam a capacidade do BC de reduzir juros de forma mais agressiva. Primeiro, o mercado de trabalho permanece aquecido. A taxa de desemprego (5,4% em outubro) está muito abaixo do nível que não pressiona a inflação (estimado em 8%). Essa rigidez, impulsionada por fatores demográficos, como o envelhecimento da população, e pelo crescimento real dos salários (cerca de 4%), impede a queda da inflação de serviços.
A inflação de serviços, projetada para 5,2% em 2026, continua distante do patamar de 4,1% compatível com a meta de inflação geral de 3%. O BC precisará ver uma desaceleração clara neste componente para se sentir confortável em aprofundar os cortes de juros.
“A demanda por serviços está alta. Esse é o segmento onde os preços raramente cedem, visto que a oferta é essencialmente local”, lembra Maurício Takahashi, professor de Economia da Universidade Mackenzie no campus Alphaville.
O segundo fator é a trajetória da dívida pública. A capacidade do BC de reduzir juros de forma mais agressiva depende de um algo que escapa ao seu controle: a sinalização de um ajuste fiscal estrutural. Sem ela, o BC manterá a Selic em níveis restritivos para evitar o cenário em que a dívida comprometa a eficácia da política de juros.
Oportunidades na Bolsa e riscos no crédito
Apesar da Selic ainda elevada, o mercado de ações é a classe de ativos mais promissora para o primeiro semestre de 2026. Dois fatores sustentam o otimismo: preços atrativos e crescimento robusto de lucros corporativos, estimado em 18%, de acordo com consenso de analistas compilado pela Bloomberg.
A queda dos juros internos — mesmo que moderada — será o principal catalisador para a valorização da bolsa. O fluxo estrangeiro renovado, impulsionado pelo cenário global favorável a investimentos de risco (Fed em queda de juros e dólar fraco), deve retornar aos mercados emergentes. O Brasil, com seu diferencial de juros ainda atraente e posição estratégica em commodities, tende a capturar parte significativa desse capital.
Inadimplência em alta pressiona o crédito
Apesar do otimismo com a bolsa no primeiro semestre, a política de juros restritiva deixa marcas profundas em setores sensíveis ao crédito. O mercado de crédito ainda contabiliza os estragos da Selic a 15%, com efeitos defasados que se manifestarão ao longo dos primeiros meses de 2026.
A inadimplência permanece elevada, especialmente no crédito a pessoas físicas. O comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas atingiu 28,5% em setembro de 2025, recorde da série histórica iniciada em 2005, segundo o Banco Central. Esse patamar reflete o acúmulo de dívidas contraídas em períodos de juros mais baixos, que agora pesam sobre o orçamento doméstico.
A insolvência corporativa deve continuar em alta. “O cenário continua duro. A combinação de juros altos, crédito restrito e instabilidade global pressiona as empresas, que batalham para conseguir ‘dinheiro novo’ visando à reestruturação, uma vez que as instituições financeiras estão cada vez mais avessas ao risco”, diz Rodrigo Gallegos, sócio da RGF Associados e especialista em reestruturação empresarial.
O alívio nas condições de crédito deve ocorrer apenas no final de 2026, devido à defasagem de seis a nove meses entre o corte da Selic e o impacto sobre inadimplência e recuperações judiciais. Setores como varejo de bens duráveis, construção civil residencial e automóveis continuarão sob pressão no primeiro semestre, com recuperação gradual apenas no fim do ano.
Eleições trazem volatilidade e incerteza fiscal à economia em 2026
A partir do segundo semestre, o cenário muda radicalmente. A disputa eleitoral e a pressão fiscal retomam o centro do palco. As eleições de 2026 serão decisivas não apenas para definir quem governa, mas para determinar se o Brasil enfrentará a agenda de ajuste estrutural ou prolongará a trajetória de deterioração fiscal.
“O governo eleito, mesmo que seja Lula, vai ser obrigado a lidar com algumas dinâmicas das despesas obrigatórias”, diz Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria.
A polarização política tende a se intensificar, com o debate eleitoral privilegiando narrativas de justiça tributária em detrimento de discussões sobre eficiência e tamanho do Estado. Em ano eleitoral, o governo deu prioridade a medidas de apelo popular. O momento da medida reforça a percepção de que o ajuste fiscal estrutural foi adiado para depois das urnas.
“O governo se apoia na ideia de que gastar mais impulsiona a atividade, mas isso só funciona quando os gastos são eficientes e geram retorno claro, como em infraestrutura, eliminação de atritos para os negócios prosperarem”, destaca Takahashi, da Mackenzie.
Mercado aguarda plano fiscal crível do próximo governo
O risco central é que a eleição não resolva a questão fiscal. Caso o próximo governo não sinalize um plano crível de ajuste das contas públicas, o mercado reagirá com aversão ao risco, pressionando o câmbio e os ativos domésticos. A volatilidade cambial deve se intensificar no segundo semestre, com o real vulnerável a episódios de fuga de capital e deterioração das expectativas.
“No segundo semestre, a perspectiva fiscal deve ser importante. O mercado vai tentar entender se a eleição destrava eventualmente um plano fiscal mais crível para o ano que vem. Se isso acontecer, o potencial de alta para a bolsa é muito grande”, diz Telo, do UBS.
Pesquisas de opinião indicam que o eleitorado brasileiro favorece segurança pública e saúde em detrimento de temas econômicos. Essa preferência reduz a probabilidade de que candidatos com agendas reformistas ganhem força eleitoral, aumentando o risco de continuidade do gradualismo fiscal — ajustes lentos e insuficientes.
O gradualismo fiscal focado em aumento de impostos tende a prolongar a incerteza, como mostram experiências recentes na América Latina. Ajustes fiscais graduais em mercados emergentes frequentemente fracassam quando evitam reformas estruturais de gastos. O mercado teme que o próximo governo repita o padrão de ajustes cosméticos, baseados em aumento de receitas e adiamento de reformas estruturais.
Dominância fiscal: o fantasma que ronda 2027
Caso o ajuste estrutural não ocorra, o risco de dominância fiscal se materializa em 2027.
Casos recentes na Turquia (2018-2023) e na Argentina (2015-2019) mostram como ajustes graduais centrados em aumento de impostos prolongaram a crise fiscal e resultaram em inflação persistente acima de 50% ao ano.
Nesses países, a política de juros perdeu sua potência diante da dívida insustentável, forçando os bancos centrais a tolerar inflação elevada para evitar o colapso das contas públicas.
No Brasil, a agenda inadiável de 2027 inclui a revisão da regra de reajuste do salário mínimo, a desvinculação de benefícios sociais e previdenciários e reformas estruturais que reduzam o crescimento vegetativo das despesas obrigatórias. O arcabouço fiscal atual é visto como insustentável diante da dinâmica de gastos obrigatórios.
Fim do arcabouço fiscal exige reformas estruturais
Alessandra Ribeiro, da Tendências, destaca que o arcabouço fiscal não sobrevive a 2027. “Estamos tendo um esgotamento do Orçamento sob essa regra, porque as despesas obrigatórias estão crescendo num ritmo muito mais acelerado do que o limite global que foi estipulado na regra, de até 2,5%.”
Sem essas reformas, o Brasil entrará em um ciclo vicioso: juros reais cronicamente elevados para conter a inflação, agravando o custo da dívida e sufocando o crescimento. A taxa de investimento permanecerá deprimida, com produtividade estagnada, e o país perderá competitividade global. O custo de oportunidade será imenso: recursos que poderiam financiar infraestrutura, educação e inovação serão drenados para o pagamento de juros.
A escolha de 2027 é binária: ajuste estrutural com reformas de gastos ou dominância fiscal com juros altos permanentes. O mercado precificará essa escolha ao longo do segundo semestre de 2026, à medida que as propostas dos candidatos se tornarem mais claras. A volatilidade será a marca registrada desse período, com oscilações bruscas nos ativos domésticos conforme as pesquisas eleitorais e os sinais de compromisso fiscal dos candidatos.
O cenário base — continuidade do gradualismo — já está parcialmente embutido nos preços dos ativos. Mas o cenário de ruptura fiscal (dominância) ainda não está totalmente incorporado aos preços. Investidores prudentes devem reduzir exposição a ativos de risco doméstico no segundo semestre, dando prioridade a proteção cambial e ativos com menor correlação ao risco Brasil.

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