
Em um mundo fragmentado por conflitos no Leste Europeu e pela ascensão da China, o Brasil se transformou em peça estratégica essencial para Bruxelas — garantindo segurança de suprimentos e diversificação geopolítica com o acordo UE-Mercosul enquanto o debate político segue travado.
A União Europeia não busca apenas um novo mercado consumidor de 720 milhões de pessoas ao aprovar uma versão prévia do acordo UE-Mercosul nesta sexta-feira (9). O pacto, que deve ser assinado nesta semana no Paraguai pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, representa uma virada estratégica para o bloco europeu.
Bruxelas entendeu que a dependência de fornecedores instáveis representa risco sistêmico à sua economia. Segundo José Carlos de Souza Filho, professor da FIA Business School, a União Europeia observa a Rússia exercer hegemonia no Leste Europeu e a China avançar em mercados na África e América Latina. Nesse contexto, o acordo deixou de ser apenas instrumento de liberalização comercial para se tornar ferramenta de sobrevivência estratégica — uma proteção contra riscos de dependência excessiva, o chamado hedging geopolítico.
João Alfredo Lopes Nyegray, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), afirma que a Europa não busca apenas aumentar o volume de compras, mas construir previsibilidade em um ambiente internacional instável. Ele ressalta que o Brasil é um parceiro raro: combina escala agroindustrial com uma base industrial diversificada — embora com gargalos — e serve como âncora para os europeus.
Essa combinação transforma o país em fornecedor confiável para um mercado de alta renda e padrão regulatório elevado.
A estratégia de Bruxelas, porém, enfrenta resistência significativa. O pragmatismo de Berlim e Madri colide com o protecionismo agrário de Paris e Varsóvia. Governos como o da França utilizam critérios ambientais como arma de pressão — invocando desmatamento e a necessidade de não ficar refém de um único centro de poder global.
“A França se manifesta contrária devido à pressão intensa de seus agricultores, que se sentem ameaçados pelo diferencial competitivo brasileiro”, lembra Souza Filho.
Estratégia jurídica: o “fatiamento” do acordo UE-Mercosul
Diante desse impasse político, a Comissão Europeia desenhou uma estratégia jurídica para contornar o risco de bloqueios em parlamentos nacionais: o fatiamento do acordo, que divide o tratado em partes com diferentes regimes de aprovação.
O acordo foi dividido em dois blocos jurídicos distintos. As cláusulas comerciais — tarifas, cotas e comércio de bens — ficam sob competência exclusiva da União Europeia e exigem apenas o consentimento do Parlamento Europeu e a conclusão pelo Conselho por maioria qualificada: 55% dos países representando 65% da população.
Já as cláusulas que envolvem investimentos, proteção de dados, compras governamentais e cooperação regulatória dependem de ratificação pelos 27 parlamentos nacionais.
Críticos apontam que o fatiamento reduz o poder de fiscalização dos parlamentos nacionais sobre temas sensíveis. A cúpula em Bruxelas argumenta que o modelo é necessário para garantir a segurança jurídica dos investidores.
Benefícios econômicos e segurança jurídica para o Brasil
Do lado brasileiro, essa agilidade significa que a redução de tarifas e a abertura de cotas para produtos como carne e etanol podem ser implementadas sem aguardar anos de debates em assembleias distantes.
A previsibilidade jurídica é o principal chamariz para o capital produtivo europeu, que já possui um estoque de US$ 321,4 bilhões investidos no país em 2023, segundo o Banco Central. O acordo fortalece o Mercosul como plataforma de inserção internacional e incorpora compromissos de defesa comercial e cooperação regulatória, criando ambiente de negócios mais seguro para o investidor.
Mais do que isso, o Brasil ganha um ativo institucional: o acordo trava compromissos de longo prazo que transcendem governos, reduz o espaço para medidas arbitrárias, aumenta a transparência regulatória e sinaliza que o país está disposto a se inserir em cadeias produtivas globais complexas.
O impacto no agronegócio brasileiro com o acordo UE-Mercosul
O agronegócio brasileiro é o protagonista claro do acordo. Cerca de 99% das exportações agrícolas do Mercosul terão algum nível de liberalização tarifária, o que permitirá ao Brasil competir em igualdade de condições em um mercado de alto poder aquisitivo.
Café solúvel, sucos de laranja, frutas frescas e óleos vegetais lideram a lista de ganhadores, com a eliminação de tarifas que aumenta margem de lucro e capacidade de investimento. O acordo também contempla cotas para setores sensíveis: 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida e etanol para uso industrial com tarifa zero.
“O acesso preferencial ao mercado europeu estimula a integração das empresas brasileiras às cadeias globais de valor”, destaca Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp).
Exigências ambientais como barreira comercial
Mas o benefício não será uniforme. As cláusulas ambientais deixaram de ser adereços diplomáticos para se tornarem o centro da disputa comercial. O governo francês utiliza critérios ambientais como arma de pressão — suspendendo importações de produtos que usam defensivos proibidos na Europa e transformando o debate tarifário em barreira regulatória custosa.
“O acordo premia a eficiência e padrões internacionais. Capturará mais valor quem operar sob rastreabilidade e controle ambiental”, destaca José Luiz Mendes, consultor de estratégia e M&A da StoneX. A sustentabilidade precisa ser encarada como estratégia de negócio, não apenas como custo.
Indústria nacional: cautela e modernização
Se o agro celebra, a indústria encara o acordo com cautela e esperança. O pacto representa uma chance de interromper o definhamento das exportações industriais para a Europa e reposicionar o país em um mercado estratégico de alto valor agregado — abrindo espaço para setores intensivos em conhecimento e serviços de alta especialização, como engenharia e serviços técnicos.
O acesso preferencial abre portas para modernização produtiva e cooperação científica com a UE. “É fundamental que a implementação considere períodos de adaptação e instrumentos de apoio à competitividade”, afirma Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
Para a indústria, diversificar mercados é estratégia para reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer cadeias produtivas.
Desafios competitivos e o mercado interno
Há um preço a pagar: o livre mercado funciona nos dois sentidos. Queijos, leite em pó e ingredientes lácteos europeus chegarão com força às prateleiras brasileiras, junto com vinhos e bebidas premium, pressionando preços e margens de lucro dos produtores nacionais.
Essa realidade exigirá reestruturação forçada do mercado interno. Analistas preveem aceleração no processo de consolidação das empresas de laticínios no Brasil — quem não buscar eficiência produtiva e padrões internacionais enfrentará dificuldades para sobreviver.
Diante dessa pressão competitiva, o papel do Estado e das entidades de classe será fundamental para reduzir o custo de adaptação. Políticas de modernização industrial, acesso a crédito subsidiado, programas de inovação e apoio à certificação técnica podem determinar quem sairá fortalecido desse processo — e quem ficará pelo caminho.
Além dos bens de consumo, a indústria europeia domina o fornecimento de alta tecnologia: insumos químicos, farmacêuticos e maquinário de precisão essenciais para a cadeia produtiva brasileira. Em 2025, 98,8% das importações brasileiras da UE (US$ 49,7 bilhões) foram bens industriais, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
O acordo preserva instrumentos essenciais de política industrial e assegura prazos de adaptação para setores sensíveis como o automotivo, permitindo que montadoras e cadeia de suprimentos se reestruturem. A proteção caminha junto com acesso facilitado a tecnologias europeias, vital para competitividade global.
O objetivo é integrar a indústria às cadeias globais de valor e elevar o padrão de produção sem sacrificar emprego qualificado. “É um avanço estrutural necessário para o crescimento econômico de longo prazo”, diz Rafael Cervone, do Ciesp.
A grande questão para o Brasil não é apenas exportar mais, mas exportar melhor — aproveitando o acordo para escalar na cadeia de valor e fortalecer setores de maior sofisticação tecnológica.

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